O esqueleto
Livro apocalíptico - prêmio Pulitzer e filme imperdível.
O Haiti é um laboratório dos Estados Unidos
DeRose no programa Páginas Soltas em Portugal
En passant
O caneco
A Nêga deu uma missão que parecia impossível pro Nêgo malandro dela. Há 17 anos ela havia ganho um adorado presente do Nêgo, mas ele nunca mais soube onde encontrar um outro igual pra fazer a alegria da Nêga. Só que a Nêga, frequentadora de umas boas Terreiras lá no morro, recebeu a notícia de que era possível ter novamente aquele presente em forma de caneco que ela tanto queria. Era uma peça única e ficava longe demais pro Nêgo malandro ir buscar; e o pior é que outros já haviam descoberto e estavam a caminho para pegá-lo também. Mas para encurtar e abrir os caminhos do Nêgo um bom Guia novo da Terreira iria acompanhá-lo. Pelo bem e a felicidade da Nêga, o Nêgo topou a missão, apesar de desconfiar um pouco daquele Guia branquelo que estava ali para acompanhá-lo. Lá se foram. Era mesmo longe, caminho árduo, o Nêgo não estava muito convicto da verdade daquilo tudo e o Guia branquelo já tinha esgotado todos seus argumentos de convencimento e motivação. O Nêgo, malandro, mandou dizer pra Nêga que não iria conseguir chegar lá, infelizmente. Que quanto mais ele caminhava, mais distante parecia. Então a Nêga foi a Terreira e pediu para que enviassem um Ajudante de Guia que lá morava em substituição ao branquelo. Ela confiava no Ajudante porque ele tinha um passado muito respeitado, pois já havia proporcionado muitas alegrias à sua Nação. Apesar dos Caciques da Terreira também o respeitarem, nunca deram a oportunidade de efetivá-lo como Guia por puro preconceito! Os Caciques analisaram a situação e pensaram que logo teriam de mandar outro Guia de verdade, mas concordaram em enviá-lo provisoriamente com a condição de que ele voltaria a ser Ajudante, no que ele aceitou por ser muito humilde e, principalmente, porque gostava de servir à sua Nação. No fundo aquele Ajudante era mais malandro do que todos imaginavam e viu que ali era a sua grande oportunidade de se tornar, então, um Guia de verdade. Malandro com malandro se entende. Foi graças ao Ajudante que o Nêgo cumpriu a sua missão. Superou a todos os obstáculos e adversários e trouxe o caneco que a Nêga tanto queria. E o Ajudante, agora promovido a Guia, fez de novo a felicidade da Nação.
O Sacrifício
Os Caras Pálidas querem tomar o lugar dos Peles Vermelhas. Os Caras Pálidas nunca entenderam como os Peles Vermelhas costumam conquistar novos terrenos e realizar festas tão bonitas com a Grande Tribo - e os invejam por isso. Não que os Caras Pálidas não tenham suas conquistas também, mas é que por onde os Caras Pálidas seguidamente andam, os Peles Vermelhas nunca andaram e nem fazem questão. Os Peles Vermelhas sempre conviveram entre as Grandes Tribos da Terra. E isto incomoda os Caras Pálidas. Os Caras Pálidas até se autoproclamam com as coisas do espírito, mas confundem suas origens. Já os Peles Vermelhas tem orgulho das suas origens e homenageiam seus ancestrais. E isto revolta os Caras Pálidas. Mas esta é a hora de fechar mais um ciclo de conquistas e outros Peles Vermelhas mais distantes estão chamando a sua Grande Tribo para comemorar, num ritual de sacrifício dos Caras Pálidas. Pobre dos Caras Pálidas que querem tomar o lugar dos Peles Vermelhas. Se escaparem do sacrifício em terras distantes, darão uma nova conquista aos Peles Vermelhas daqui. E serão execrados pelos seus em seu próprio solo. Eu não queria estar na pele de um Cara Pálida.
O fato
Certo dia, depois de passar muito tempo trabalhando, ele sentiu-se cansado, sem energia suficiente para terminar o que havia começado. Sabia ele, desde quando assumiu o compromisso com aqueles que nele confiavam, que seria mesmo difícil finalizar com sucesso. Mas assim são as coisas da vida, as proposições tanto podem ser visões quanto ilusões. Durante a primeira metade do tempo de sua obra a meta foi alcançada, apesar de muitas dificuldades terem sido superadas justamente porque a confiança que ele carregava dos seus ainda estava muito viva e presente em sua memória, o que se traduzia em força e disposição ao corpo. Por onde ele andasse todos o olhavam e diziam: “este é o meu favorito”. Mas era apenas a metade do caminho. Agora, já bem próximo do final, a conclusão já não dependia tão somente dele, por isso o cansaço e a reflexão sobre sua situação. De fato, ele não estava preparado para ser um vencedor como havia pensado lá atrás. Não chegava a ser um fracasso, ou mesmo um decepção. Apenas era mais difícil e exigia mais controle e concentração do que era capaz de prever. Que sentimento estranho! Será que esta fraqueza não seria vergonha de sua incompetência? Isto mesmo, o melhor a fazer era assumir que realmente não estava preparado para o trabalho, pedir desculpas a todos, cumprir com aquele algo que ainda tinha a fazer... e se recolher. E se preparar melhor, então, para o que ainda virá, porque um próximo compromisso sempre está a caminho.

